Wednesday, July 11, 2007

Roteiros...





Foi num dia que já se perdeu. Estava a estrada cheia de pó, o pó cheio de jipes e a velocidade cheia de um mato com tanques de guerra podres. Maria Mateus e Ana Candeias viajavam dentro de tudo aquilo, enfrentando o dia inteiro com vontade de sair dos buracos de Luanda. Tinham um CD de batida no carro e aos goles sorviam uma cervejinha bem gelada. Nem conversavam de tanto espanto. Ali na última curva da cidade, depois de passarem pelo musseque deixando para trás o trânsito engarrafado, começava-se a ver, um verde mesmo com nome de verde, espalhar-se de tal maneira pelo terreno que comia as vistas. Vinha tão repentino que, se a pessoa não estivesse preparada como era o caso, perdia o fôlego. Era um chicote de verde bonito. Uma eternidade depois, quando se conseguia assobiar o ar do peito, este perdia-se por todo aquele horizonte comprido que ia para lá do longe.

As miúdas estavam parvas de sossego. Um ano de Luanda para finalmente meter a mão em Angola. Angola ali a meia hora da cidade afinal. A emoção foi tanta, que não importou aqueles carros queimados na beira da estrada, a guerra abandonada sempre à vista, nada disso incomodou a beleza do lugar. Só viam montes, pássaros, e silencio. Até o jipe sentia-se estúpido por andar numa estrada tão larga, ameaçando uns cento e vinte cortando a recta de alcatrão liso, sem achar nem um buraquinho para solavancos.

Há coisas na vida que só se aprecia de peito aberto. Pensava Karina para com os seus óculos escuros. Esse era o dia do sempre em frente. Na hora da fome, parcaram os carros na berma de umas barracas de peixe. As donas vendiam tudo a sol aberto, peixinho da barra pescado na hora, feito na brasa de um toldo, com feijão com óleo de palma e outras iguarias. Aquele cacuço me desceu bem, tão bem, que aguentei com o wisky cortado do aperitivo. Olhei para o puto e sorri. Pedi-lhe:

«Diz na tua mãe que eu quero aquela lagosta também.»

Era emoção na vista, emoção no estômago, emoção por todo o lado caindo aos jorros.

«Ricardo, acho melhor não comeres muito os picantes e os molhos…»

«Qual quê! Isto é tudo limpo Simone, não é como em Luanda, esta tudo à vista, sacam do mar metem na grelha, levam ao prato.»

«Menos os molhos e os picantes Neusinha, menos isso.»

«Esquece lá isso por hoje. Saímos para o que é da terra ou não? Se não, íamos ao restaurante do pequeno Jango, não é?»

Tirou-se ainda um bailarico dos pés, riu-se um bocado, e deu para uns mergulhos no mar. Um mar pesado, cheio de negro no fundo, com cor de barro na superfície e tufos de areia junto ás rochas. Local onde se chegava a pique, numa descida melindrosa de jipes com massa muscular para aquilo. Um deslize e podíamos ficar ali mesmo…Mas quem tinha medo? Ninguém! O Manuel era o homem dos ralis por Portugal, alucinado com aquelas escarpas, e terrenos baldios que experimentar a máquina. Os rapazes todos repentinamente tinham-se transformado em campeões de corta-mato, e bem, há sempre um dia para se morrer, tanto poderia ser esse como outro qualquer.
Pensei nisso três vezes, depois decidi ir a pé até lá abaixo.

O retorno fez-se de corpo mole, cheio de vontade de um bom sofá. A entrada de Luanda fazia-se impossível, mas cheirava bem, a tubo de escape, a ruído, a som de Kuduros sob ultrapassagens impensáveis. Um ritmo anímico da cidade que nos era tão familiar que já o sentíamos de olhos fechados. Lembrávamo-nos de todos os buracos que esquivar, dos rituais que seguir, e isso jogou com o sorriso de quem já é da sua pedra.

No fim das dez da noite, já dentro de casa, de jantar na mesa, banho tomado, conversas sobre o dia aquecidas, a barriga baixou, e foi só cagar. Éramos doze, cada um na sua pia, a jogar fora as comezainas da barraca da dona Justina. E todos sabíamos que não era do peixe, nem era do wisky, porque eu era a única que não cagava e apenas assistia. Recebia os telefonemas, fazia-os, dava concelhos sobre chás, relinchando que nem um cavalo, coisa feia e pouco amiga. Mas também o são os gozos de "que tens a manias das doenças e és acagaçada de aventuras".

O Cacuço da mamã Justina, o melhor de Angola, e quiçá até do mundo, vale tudo, e seus molhos limpam até o organismo.


Os pés de Nina Simone

11 Comments:

Blogger indomável said...

Ohhhhhhhh Nina!

Tenho olhos de água vermelha neste momento. Saudade é uma palvra tão portuguesa, mas a mim sabe-me a musseque e a feijão com óleo de palma e a muamba e a funge e a manga acabadinha de tirar da mangueira e a pó vermelho e limpo, e a Luanda e a Angola...
Tenho olhos de água vermelha... na cara e no coração.

22:05  
Blogger NinaSimone said...

Indomavel...sempre a encalacrar-me, parece que isso virou profissão, entupir os amigos de coceiras no toutiço e comunicar-lhe com o encalacranço. Como é que se responde a uma coisa dessas!? epa...minha miuda meu...um dia te levo de novo, prometo, te levo por agora no barco do meu braço mas um dia has de ir de avião até chegar. Um abraço

22:38  
Blogger NinaSimone said...

ja sabes que o riso é o melhor amigo do desajeitamento, desencalacra. (risos)

22:40  
Blogger indomável said...

como queres que desencalacre se eu gosto mesmo é de encalacrar?
E eu não tenho culpa se me encalacras primeiro, com esse teu jeito de quem não quer, de quem não sente quase nada, de quem só observa...
tu encalacras minha amiga e deixas o toutiço amigo num profundo estado de comichão!
e me leva, de avião, barco, pelo braço... Pode ser que o que tenho andado à procura esteja por lá...
é que eu sou muitas, apesar da minha cara ser só esta, mas por dentro há cá um caudal de personagens!...
Angola é a união, o meu yoga... porquê?
Talvez porque deixei lá a minha mãe peta...

10:36  
Blogger Su said...

Não conheço Angola, mas, despertaste-me os sentidos… entrei em apneia rodeada de oxigenio puro.
Minha nega maluca, tas cada vez melhor mulher! Os anos deram-te asas, e agora ninguém te agarra, n sei q andas fazendo com o teu tempo, mas espero q este dom de te ergueres assim nas palavras, não fique fechado no armário inóspito de um blog, adorei(!), li-te até ao tutano e vou-me sorrindo de alegria por um dia ter tido a sorte de me poder embebedar na vida contigo... dês-te cabe de mim, agora nunca mais te desagarro!
Bj redondo.
Su.

15:48  
Blogger Su said...

Ps: lembrei-me! fiquei com um livro teu, A Brincadeira de Milan Kundera

um dia eu devolvoooo, prometo!
:)

15:52  
Blogger antonio said...

Memórias são coisa sérias, o Tonho sai para intervalo.

19:20  
Blogger alf said...

Memórias dos outros não leio... estou proibido de olhar para trás... saudades só depois de 3 copos de tinto (saudade é dor em coração de homem, é calor no de mulher).

Vou desafiar o Tonho para umas bejecas.

21:57  
Blogger d.e. said...

Grande Nina, fizeste-me lembrar de aquelas estórias antigas do musseque Sambizanga: o Lomelino dos Reis, o Xico Futa, o cipaio Zuzé, os fanguistas e os monangambas, o riso dos monandengues, como esse, belíssimo, que nos mostras no cimo da página.

00:08  
Blogger antonio said...

Desde que não apareça o Silveira... não estou para medir forças com um rival à altura!

00:34  
Blogger bruno cunha said...

Muito bom!
Adorei o teu conto!
(concerteza que inspirado em acontecimentos reais)
;)

08:18  

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home